Compreensão e tratamento da Síndrome do Pânico

Compreensão e tratamento da Síndrome do Pânico no enfoque da Gestalt-terapia

Resumo: As concepções teóricas e as técnicas de intervenção da Gestalt-terapia são freqüentemente usadas na prática clínica para tratamento do pânico, apesar da inexistência de estudos abordando essa relação. Tendo em vista essa lacuna, o objetivo deste artigo, resultante de ampla revisão literária e atendimento clínico a pacientes com queixa de pânico, é analisar a origem, o desenvolvimento e o tratamento desse tipo de neurose de acordo com as concepções e propostas da Gestalt-terapia. Sob essa ótica, a conclusão obtida é que o pânico tem origem em experiências traumáticas envolvendo conflito entre situações ao mesmo tempo intolerantes e indispensáveis. De modo geral, tratar o pânico exige uma visão bio-psicopatológica do distúrbio, com intervenção associada de medicamentos e psicoterapia. Especificamente sob o enfoque da Gestalt-terapia, tratar uma neurose de pânico inclui a identificação e desconstrução dos mecanismos de bloqueio de contato que prejudicam a relação do sujeito com seu meio e consigo mesmo, causadores do transtorno.

Palavras-chave: pânico; síndrome; Gestalt; Gestalt-terapia; mecanismos de defesa

A Síndrome do Pânico, manifestação física e psicológica de intensa apreensão, temor ou terror que surge sem causa aparente e em forma de ataques súbitos, vem sendo diagnosticada com relativa freqüência entre pessoas de diferentes faixas etárias e nível sócio-econômico. Investigando a origem desse transtorno pela ótica da Gestalt, é possível afirmar que o pânico se desenvolve a partir de experiências de desamparo, real ou imaginário, em que o sujeito vivencia o conflito interno entre situações ao mesmo tempo intolerantes e indispensáveis. Diante do impasse, o organismo recorre a mecanismos de defesa, buscando preservar a sobrevivência, e desenvolve a neurose do pânico.
A crescente incidência de casos pode ter relação com o modo de vida contemporâneo, em contextos de individualismo e competitividade exagerados e falta de compartilhamento de cuidados com as crianças, como ocorria décadas atrás. É o que sugere Mário Eduardo Costa Pereira (2003).
O Distúrbio do Pânico foi descrito oficialmente pela primeira vez em 1980, na terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), da Associação Psiquiátrica Americana. Antes, chegou a ser visto como uma anomalia neuroquímica causada por alteração biológica geneticamente transmissível, sem qualquer relação com a subjetividade, história de vida ou cultura do indivíduo. Por essa perspectiva, biológica em absoluto, toda expectativa de tratamento era depositada nos medicamentos.
Estudos posteriores e a experiência clínica mostraram que em muitos casos só o uso de remédios não leva à remissão completa dos sintomas. Embora os medicamentos apresentem eficácia na redução das crises, em muitos casos os pacientes continuam apresentando sintomas de ansiedade, medo de novos ataques, necessidade de apoio externo e dependência do suporte médico mesmo após anos de tratamento.
Atualmente tende a prevalecer a percepção de que há maior eficácia no tratamento quando há associação de remédios e psicoterapia. É uma abordagem bio-psicoemocional que leva em conta as características orgânicas e a subjetividade do paciente, a forma individual como ele enxerga e vivencia as diferentes circunstâncias de vida.
Um ataque de pânico ocorre repentinamente em situações normais do cotidiano e sem a existência de risco real, isto é, vem do nada e sem motivo. O DSM-V, edição de 2002, classifica ataque de pânico como Transtorno de Ansiedade, caracterizado por período de intenso medo ou desconforto, freqüentemente acompanhado de sentimentos de catástrofe iminente e desejo de escapar. Os ataques têm início súbito e aumentam rapidamente, atingindo um pico após 10 minutos, aproximadamente.
Os sintomas físicos dos ataques de pânico são: palpitações; sudorese; tremores ou abalos; sensação de falta de ar ou sufocamento; sensação de asfixia; dor ou desconforto torácico; náusea ou desconforto abdominal; calafrios ou ondas de calor; tontura ou vertigem. Eles ocorrem associados a sintomas emocionais: desrealização ou despersonalização (sentir-se como sendo irreal ou estranhar a si mesmo como se fosse outra pessoa); medo de perder o controle ou de enlouquecer; medo de morrer e presença de parestesias (sensações de formigamento, dormência, picada ou queimadura).
O Transtorno de Pânico freqüentemente se manifesta associado à outro transtorno de ansiedade, a agorafobia. Além disso, as pessoas que sofrem de Síndrome do Pânico alteram significativamente seus comportamentos e rotinas de vida em função do medo de sofrer novos ataques, o que em muitos casos acaba por afetar a auto-estima e resultar em outro transtorno associado, a depressão.
A busca pela etiologia do transtorno do pânico revela que, do ponto de vista fisiológico, os sintomas físicos dos ataques são idênticos aos da reação de luta ou fuga ou reação de alarme que o organismo humano e o de muitos animais desencadeia em situações de perigo. Nessa circunstância, o organismo realiza uma série de funções destinadas a acelerar a atividade muscular para que o corpo possa lutar contra o inimigo ou fugir dele em corrida desenfreada.
De acordo com Guyton (1993), as respostas fisiológicas normais do corpo, desencadeadas pelo Sistema Nervoso Simpático numa situação de risco, incluem contração muscular, aumento da concentração de glicose no fígado e no músculo, aumento da pressão arterial e da freqüência cardíaca, aumento do fluxo sangüíneo para os músculos ativos e redução do fluxo sangüíneo para órgãos excluídos da atividade motora rápida , como tubo gastrintestinal e rins.
Ocorre, ainda, vaso-constrição periférica (o que dá o efeito de rosto pálido, mãos e pés frios); fechamento dos esfíncteres; hiper-ventilação dos pulmões (o que seria a causa da sensação de formigamento nos dedos dos pés e das mãos); aumento da atividade mental; aumento da concentração de noradrenalina e adrenalina, dilatação das pupilas e sudorese excessiva (para baixar a temperatura).
Essas mesmas reações ocorrem nos ataques de pânico, mas sem a existência de perigo real ou presença de estímulo desencadeante da “reação de alarme”. Isto é, não há uma fera rosnando na frente da pessoa, nem um bandido apontando uma arma que o force a decidir entre lutar ou fugir.
Apesar disso, as sensações físicas e emocionais são tão intensas que, aos olhos das pessoas que vivenciam o ataque e das que o observam, parece insensato aceitar terem vindo do nada. Sem encontrar uma razão para seus poderosos sentimentos, quem sofre o ataque de pânico começa a pensar em infarto do coração, tumores cerebrais ou colapsos mentais, entre outros males. (Baker, 2000).
O questionamento freqüente é “por que o pânico se manifesta em algumas pessoas e em outras não?” De acordo com Kipper (2004), uma das suposições é que haja uma vulnerabilidade neurofisiológica inata (constitucional) que, associada à exposição crônica de situações psicologicamente estressoras, redundaria em crises de pânico. Manfro (2004) também menciona uma suposta vulnerabilidade constitucional subjacente ou diátese para ansiedade, herdada geneticamente e expressa de forma variável ao longo da vida.
A inexistência de explicações neurofisiológicas ou neuroquímicas definitivas leva a suposições diferentes, conforme a orientação teórica predominante na análise. Contudo, nas hipóteses psicológicas, há uma tendência a se aceitar que as reações de pânico ocorrem quando o organismo se defronta com eventos estressores ou traumáticos que de alguma forma contenham ameaça de desamparo e desproteção e o sujeito fracassa nos esforços de elaborar essas vivências ameaçadoras.
A angústia provocada pelas crises e o medo de novos ataques levam ao insistente questionamento “por que aconteceu justamente naquele momento?”. Uma resposta parcial para essa dúvida vem da observação clínica de muitos especialistas e de estudos teóricos: os ataques parecem ter “gatilhos” que provocariam as primeiras crises de pânico, situações como morte ou doença de cônjuge, separação conjugal, gravidez, perda de um bebê, sair de casa, começar em novo emprego, operação ou doença incapacitante, muito estresse no trabalho e graves problemas financeiros, entre outros. Todas essas situações, em essência, podem ser consideradas estressoras e a “pressão” oriunda delas pode ir se acumulando até se manifestar de forma abrupta e inesperada, detonando um ataque de pânico.
A partir da classificação do pânico como um tipo de neurose, conforme DSM-V, e da concepção gestáltica de neurose como sendo o acúmulo de “gestalten inacabadas”, conclui-se que a Síndrome do Pânico é uma neurose desenvolvida quando o indivíduo vivencia situações de necessidades autênticas interrompidas ou não-satisfeitas; quando é submetido a sucessivas interrupções no fluxo natural de alternância entre figura e fundo. Repetidas vezes o indivíduo apresentaria dificuldade de ajustamento entre o organismo e seu meio frente a determinadas situações para ele consideradas estressoras.
No transtorno do pânico, o organismo recorre ao funcionamento neurótico como forma de recuperar o equilíbrio perdido na relação conflituosa entre o indivíduo e seu meio. O impacto da divergência entre imperativos sociais e pessoais é determinante no surgimento da neurose:
Se esse tipo de vivência é muito repetido ou se uma única vivência dessa espécie é
suficientemente marcante, o sentido de equilíbrio do indivíduo no campo ficará alterado o
bastante para que ele perca a capacidade de julgar adequadamente o estado de equilíbrio ou
desequilíbrio em qualquer situação” (Perls, 1988, p.65).
De acordo com a teoria da Gestalt, diante da impossibilidade de satisfazer uma de suas necessidades e realizar bom contato ou de poder evitar o contato, o organismo se vê obrigado a recorrer a estratégias que assegurem sua integridade e sua sobrevivência. Essas estratégias são as chamadas resistências ou Mecanismos de Bloqueio do Ciclo de Contato.
Essa concepção da gênese da neurose origina-se do pressuposto de que organismo e meio são partes de um todo, numa relação de reciprocidade em que um modifica o outro. Para funcionar em equilíbrio, o organismo necessita dessa relação de trocas com o meio externo, que ocorre na fronteira de contato.
Para os teóricos da Gestalt, o ser humano é essencialmente biológico e tem impulso natural em direção ao equilíbrio. Perls adaptou o conceito biológico de auto-regulação para explicar o funcionamento psicológico do homem, isto é, para afirmar que as pessoas têm uma tendência a organizar suas experiências em “um todo significativo, através de processos constantes de formação e destruição de figuras, pelos quais se dá a auto-regulação do organismo ou seu ajustamento criativo no meio” (idem, p.35).
Com essa tendência para a auto-regulação organísmica os indivíduos estariam sempre buscando formas de permanecer em homeostase. A neurose seria a via alternativa a que o organismo recorre, numa situação adversa ou ameaçadora, para manter a homeostase. Esse objetivo, no entanto, não é atingido por completo: o estado neurótico seria uma homeostase falsa, um ardil provisório que acaba se perpetuando.
Essa auto-regulação enganosa (que deveria ser temporária) é obtida por meio dos mecanismos de interrupção do contato. Assim, um indivíduo que tem ataque de pânico está com suas defesas internas em estado de falência. Ele não consegue mais impedir a re-vivência das experiências intoleráveis ou ameaçadoras que foram interrompidas no passado e permaneciam presas no fundo ou no inconsciente. De uma hora para outra, ele é tomado por uma intensa ansiedade que invade todo o seu ser, com uma força incontrolável, semelhante a uma grande tromba d’água que destrói a represa.
A pessoa perde a capacidade de agir contra essa invasão ameaçadora que agora vem de dentro de si mesmo e não mais de fora. De tanto evitar o contato com tudo que poderia lhe dar medo e ansiedade, passa a sentir medo e ansiedade incontroláveis sem que haja situação ou objeto conscientemente perceptíveis como motivadores desse sentimento de perigo.
Tratamento – Fritz Perls (1988) afirma que do ponto de vista da Gestalt-terapia, a pessoa em estado de neurose não é uma pessoa que teve um problema no passado, mas uma pessoa que tem um problema no presente:
O neurótico (…) é uma pessoa que se engaja cronicamente em se auto-interromper, que tem
um sentido de identidade inadequado (e, portanto, não pode distinguir adequadamente entre si
mesmo e o resto do mundo), que tem meios inadequados de auto-suficiência, cuja homeostase
psicológica não funciona, e cujo comportamento surge de esforços mal dirigidos para a
aquisição de equilíbrio. (…) O neurótico acha difícil participar completamente do presente –
seus negócios inacabados do passado estão em seu caminho. (PERLS, 1988, p.76).

Perls (1988) afirma que do ponto de vista da Gestalt o neurótico não é simplesmente uma pessoa que teve um problema, mas uma pessoa que tem um problema contínuo, no presente. O objetivo da terapia é dar-lhe suporte para que ele possa resolver seus problemas atuais e quaisquer outros que venham a surgir. O instrumento para essa conquista é a auto-estima, instrumento que o neurótico adquire lidando consigo mesmo e com seus problemas, com todos os recursos de que disponha.
O neurótico (…) é uma pessoa que se engaja cronicamente em se auto-interromper, que tem
um sentido de identidade inadequado (e, portanto, não pode distinguir adequadamente entre si
mesmo e o resto do mundo), que tem meios inadequados de auto-suficiência, cuja homeostase
psicológica não funciona, e cujo comportamento surge de esforços mal dirigidos para a
aquisição de equilíbrio. (…) O neurótico acha difícil participar completamente do presente –
seus negócios inacabados do passado estão em seu caminho. (PERLS, 1988, p.76).

A terapia, então, serão momentos para ele aprender a reconhecer e lidar com as experiências inacabadas. “A terapia gestáltica é uma terapia experiencial, mais do que verbal ou interpretativa (op. cit., p.77). Assim, pede-se ao paciente não para falar dos seus traumas e problemas do passado, mas para reexperienciar esses traumas e problemas no aqui e agora e encerrá-los, fechar as gestalten. “Se o paciente vai fechar o livro de seus problemas passados, deve fechá-lo no presente. Porque deve entender que, se os seus problemas passados fossem realmente passados, não seriam mais problemas e certamente, não seriam atuais” (idem).
Segundo Perls (id.) o terapeuta deve lidar com cada um dos mecanismos neuróticos à medida que eles aparecem. Cada um deve ser integrado pelo paciente e transformado numa expressão de si mesmo:
Na terapia temos que restabelecer a capacidade do neurótico de discriminar. Temos que
ajudá-lo a descobrir o que ele é e o que ele não é; o que o gratifica e o que o contraria. Temos
de guiá-lo para a integração; ajudá-lo a encontrar o próprio equilíbrio e o limite entre ele e o
resto do mundo. É simples dizer ‘seja apenas você mesmo’, mas para o neurótico, milhares de
obstáculos lhe barram o caminho. (Idem, p.56).

Pesquisadores que sucederam Perls sugeriram caminhos para desconstruir cada um dos mecanismos de defesa, entre eles, Jorge Ponciano Ribeiro (1997) e os Polsters (2001). Essas propostas estão expostas a seguir, de forma resumida:
Introjeção: Segundo os Polster (2001), para desfazer a introjeção é preciso empenhar-se em estabelecer dentro do indivíduo o senso de escolhas disponíveis a ele, restituir sua capacidade de diferenciar ‘eu’ de ‘eles’. E uma das formas para se conseguir isso é pedindo a ele que forme pares de sentenças para si mesmo e para o terapeuta, começando com o pronome eu, e depois com o pronome você. Outro caminho é mobilizar a agressividade do introjetor, para que ele saia da posição de vítima. “A rebelião é necessária para se desfazer a introjeção. Também é necessário vomitar, literal ou figurativamente, visto que isso representa a descarga dos indesejáveis corpos estranhos que precisam ser expelidos, mesmo que com o passar dos anos a pessoa sinta como se eles fossem próprios dela” (p.92).
Ribeiro (1997) aponta como fator de cura da introjeção o processo de mobilização, i.e., levar o introjetor a sentir necessidade de mudar, de exigir seus direitos, separar as próprias coisas das dos outros, sair da rotina, expressar sentimentos exatamente da forma como os sente e não deixar de ter medo de ser diferente. Ginger (1995), propõe algo semelhante: desenvolver a independência do cliente, a responsabilidade e assertividade dele; explicitar qualquer refúgio ilusório na introjeção.
Confluência: Ribeiro (1997) propõe que esse mecanismo de bloqueio deve ser eliminado pelo processo denominado por ele de retirada, que consiste em a pessoa sair das coisas no momento em que sentir que deve sair, percebendo o que é dela e o que é dos outros; aceitar ser diferente para ser fiel a si mesma, amar o eu e aceitar o nós quando lhe convier; procurar o novo e conviver com o velho de forma crítica e inteligente.
Polster & Polster (2001) afirmam que o indivíduo precisa começar a experienciar escolhas, necessidades e sentimentos que sejam seus e não tenham de coincidir com os das outras pessoas. O indivíduo precisa aprender que pode encarar o terror de ser separado das pessoas com as quais vive em confluência e permanecer vivo. Perguntas como “o que você sente agora?”, “O que você quer agora?”, “o que você está fazendo agora?” podem ajudar o confluente a focalizar seus próprios objetivos, afirmam.
Projeção: Para desfazer as projeções, segundo Ribeiro (1997), é preciso aprender a agir expressando mais confiança nos outros, assumir responsabilidade pelos próprios atos, identificar em si mesmo as razões dos próprios problemas e agir em nome próprio, sem medo da própria ansiedade.
Retroflexão: Ribeiro (id.) descreve como fator de cura desse mecanismo um contato no qual o indivíduo sinta a si mesmo como sua própria fonte de prazer, nutrindo-se do que quer sem intermediários, relacionando-se com as pessoas de maneira direta e clara, usando a energia para desfrutar com os outros o prazer do momento.
Deflexão: Ribeiro (id.) propõe que a desconstrução desse mecanismo de bloqueio ou interrupção do contato pode ser feita por meio do processo denominado por ele de Consciência. Consiste em orientar o indivíduo a dar-se conta de si mesmo de maneira clara e reflexiva; a levá-lo a ficar mais atento quanto ao que ocorre a sua volta, a se relacionar com as outras pessoas e coisas com mais reciprocidade.
Fixação: Desenvolver a Fluidez, o processo pelo qual uma pessoa se movimenta, se localiza no tempo e no espaço, deixando posições antigas e se renovando, é o que propõe Ribeiro (id.) Com fluidez, o indivíduo pode sentir-se mais solto, espontâneo e com vontade de criar e recriar a própria vida.
Proflexão: A desconstrução desse mecanismo é obtida a partir da Interação, processo proposto por Ribeiro (id.) para que o indivíduo consiga aproximar-se do outro sem esperar nada em troca, a agir de igual para igual, doar-se pelo prazer de doar e conviver com as necessidades alheias sem esperar retribuição.
Egotismo: Para Ribeiro (id.), o indivíduo precisa ser levado a enxergar que o mundo é composto de pessoas; que o outro pode ser fonte de contato nutritivo, que se pode compartilhar o prazer e a vida, que é possível desfrutar dividindo e que o mundo fora de si pode ser fonte de prazer.
Dessensibilização: Segundo Ribeiro (id.), o paciente precisa recuperar a capacidade de ter “sensação”, sair do estado de frieza emocional, sentir melhor a si mesma e às coisas; ficar mais atento aos sinais que o corpo emite e procurar novos estímulos.
Para a Gestalt-terapia tratar uma neurose implica em restituir a integração da pessoa, trabalhando as interrupções de contato utilizadas para evitar ou suportar o conflito entre necessidades internas e imposições do meio. A interrupção do contato, embora possa funcionar como estratégia de sobrevivência e de defesa do ego, pode também impedir a mudança, o crescimento e a integração do Self. Com base nesse pressuposto, a Gestalt-terapia acredita que somente por meio da vivência intensa, do contato pleno com tudo que é temido ou gerador de conflito é possível fortificar o ego, integrar o Self e produzir crescimento.
Uma das técnicas da Gestalt-terapia para restabelecer o contato do indivíduo com ele mesmo e a sua capacidade de interagir de forma saudável com o meio externo é a ampliação da consciência. “O ‘conscientizar-se’ fornece ao paciente a compreensão de suas próprias capacidades e habilidades, de seu equipamento sensorial, motor e intelectual” (Perls, 1988, p.77). Essa ‘conscientização’ ampliada significa experienciar, no presente, uma situação inacabada ou um trauma; significa focalizar o evento como figura no aqui e agora, perceber as reais emoções e os sentimentos genuínos envolvidos e, apreendendo o fato sob uma ótica mais realista, dar a ele novo significado. Pode-se obter com isso que esse evento deixe de ser figura e passe para o fundo da configuração total, a vida do paciente.
Perls (1988) destaca o aspecto terapêutico do paciente experienciar a si mesmo, dar-se conta de seus gestos, de sua respiração, da sua voz, de suas expressões faciais e dos pensamentos. Quanto mais ele se der conta de si mesmo mais aprenderá sobre o que é seu si-mesmo. Esse estar “consciente” (aware) ou o dar-se conta de algo que lhe ocorre interna e externamente está contido na sentença “agora eu percebo conscientemente”. O agora tem o poder de nos manter no presente e nos fazer perceber que nunca é possível uma experiência exceto se no presente. O eu é usado para desenvolver o sentido de responsabilidade pelos próprios sentimentos, pensamentos e sintomas.
Outro propósito da Gestalt-terapia é promover a integração entre as polaridades, ou seja, a aceitação de que além de bonzinhos podemos ser também mauzinhos; solidários, mas também egoístas; passivos e combatentes; ativos e preguiçosos; que certas reações, sentimentos e emoções são inerentes à condição humana, inclusive com função de auto-preservação, como a raiva que nos ensinam a reprimir. O processo de identificação com a polaridade alienada é fundamental para o resgate do funcionamento saudável e da integração do Self.
A técnica da cadeira vazia (hot-seat) consiste em colocar o cliente sentado e à sua frente uma cadeira vazia na qual, imaginativamente, estará sentado um personagem qualquer a quem o paciente deve se dirigir. É uma vivência útil para resolver situações inacabadas, nas quais a pessoa não consegue estabelecer contatos satisfatórios nas suas inter-relações devido à existência de sentimentos como raiva, mágoa e ressentimento, conscientes ou não.
A cadeira vazia é uma espécie de psicodrama imaginário em que o paciente ora assume seu próprio papel, ora o papel da outra pessoa em questão, sentando-se na cadeira vazia e representando a pessoa à qual deseja falar algo ou dela obter resposta, explicação ou qualquer outra fala que proporcione o fechamento da gestalt aberta. É uma técnica muito usada também em trabalhos de despedida, nos processos de “dizer adeus”, seja a alguém que já morreu ou afastou-se definitivamente do paciente.
Outra intervenção terapêutica usada por gestalt-terapeutas é o trabalho com sonhos. “Perls sugere que sonhos são mensagens existenciais que podem nos ajudar a compreender quais são as situações inacabadas que carregamos conosco, o que nos falta em nossas vidas, o que evitamos fazer e como evitamos e nos desapropriamos de partes nossas” (Fadiman, 2002, p.145).
Em Gestalt-terapia não se interpreta o sonho; o que se faz é trazê-lo de volta à vida e revivê-lo no presente, como se estivesse ocorrendo aqui e agora. O paciente é orientado a vivenciar todo o sonho ou uma parte muito significativa dele, tornando-se a pessoa, o objeto, a coisa ou a sensação integrante do sonho. Com esse exercício, o paciente pode ter insights, tornar-se aware quanto a aspectos não-compreendidos, revelados pelo inconsciente por meio do sonho.
A viagem de fantasia, técnica usada pela Gestalt-terapia para facilitar o contato do paciente com lembranças, traumas, conflitos e sentimentos relacionados a interrupções do contato, é muito semelhante ao trabalho com sonhos. Esse recurso terapêutico possibilita o contato com conteúdos reprimidos que impedem o avanço no processo de autoconhecimento e de mudança do paciente.
Assim, tratar a neurose do pânico a partir do enfoque e de técnicas da Gestalt-terapia é restituir a integração da pessoa, trabalhar as interrupções de contato utilizadas para evitar ou suportar o conflito entre necessidades internas e imposições do meio. Com a elaboração e re-significação das experiências traumáticas, a desconstrução dos mecanismos de bloqueio de contato, o restabelecimento do fluir natural entre figura/fundo e a recuperação da capacidade do indivíduo de fazer contato consigo mesmo e com o meio é restituída a propensão inata do ser humano de ter auto-regulação organísmica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Baker, R. (2000). Ataques de Pânico e Medo. Rio de janeiro: Vozes.

Fadiman, J. e Frager, R. (1986). Teorias da Personalidade. São Paulo: Harbra.

Ginger, S. e Ginger A. (1995). Gestalt Uma Terapia do Contato. São Paulo: Summus.

Guyton, A. (1993). Neurociência Básica – Anatomia e Fisiologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Knapp, P. (2004). Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed.

Kipper, L. C. et al. (2004). Tratamento do paciente com transtorno do pânico: o papel da psicoterapia psicodinâmica. Revista Brasileira de Psicoterapia, 06 (01), 53-64.
Manfro, G. & H., Elizeth & Shinohara, H. (2004). Transtorno de Pânico in: Knapp, P. Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed, página 217-225.

Pereira, M. E. C.(2003). Psicopatologia dos Ataques de Pânico. São Paulo: Escuta.

Perls, F. et Hefferline, R. et Goodman, P.(1997). Gestalt-terapia. São Paulo: Summus.
______, Fritz. (1988). A Abordagem gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro: Ed. LTC ( 2ª edição).

Polster, E. e M. (2001). Gestalt-terapia Integrada. São Paulo: Summus.

Ribeiro, J. P. (1997). O Ciclo do Contato. São Paulo: Summus Editorial.

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